No último domingo a planilha do meu treino para o UTMB previa entre 3 e 4 horas de trilha. O meu primeiro treino longo na montanha após a volta da lesão. Como a Bia precisava fazer um treino de transição (pedalar e correr) fomos para a estrada Rio-Tere. Ela mandou o pedal e subimos a serra. Na minha vez de treinar eu encarei a trilha que leva a Pedra do Sino.

No que você pensa quando está correndo?
Os primeiros passos da trilha que leva a Pedra do Sino são num caminho cheio de pedra. Parece uma estrada de paralelepípedo, com grandes blocos de pedra que se encontravam molhados. Num dia cinza, começando o treino por volta de 2 da tarde, não estava pensando em nada legal. hehehehe Na verdade, minha meta era chegar no cume da Pedra do Sino com duas horas de corrida e eu comecei a subir pensando nisso. Se eu conseguiria atingir minha meta. Passo após passo, sentindo o corpo se adaptar e a fluidez melhorar, passei o trecho de pedra e enfim consegui trotar. Entre correr, trotar, caminhar comecei a devagar e concordei com a pedida da Bia. Decidi que desse dia em diante iria compartilhar minha experiência com o trail running nesse espaço do Sua casa é o mundo.
Concentração e mecânica do movimento

Eu divido os trechos de corrida de montanha em três categorias: corríveis, caminháveis e escalaminháveis. Do mais simples para o mais complexo. O que implica que a necessidade de concentração é crescente. Quanto menor o nível de atenção mais variados são meus devaneios. Quanto maior, mais foco nos movimentos.
Nos trechos corríveis (meus favoritos) o movimento do corpo é automático, eu tenho a sensação que faço parte daquela natureza. Simplesmente percebo o ambiente. Meus sentidos parecem escanear o caminho que percorro. As ações são puros reflexos e muitos movimentos são instintivos. Nesses momentos a cabeça decola. Não penso, viajo. Foi vivendo um desses momentos que decidi escutar a Bia e começar a postar minhas sensações e descobertas no ultra trail.
Os trechos caminháveis são aqueles onde não é possível correr. Seja por acentuado aclive que faz a razão velocidade x cansaço não ser compensadora. Ou pela característica do terreno como pedras soltas, água ou lamaçais. Nesses momentos o primeiro pensamento é: Que merda momento crucial. Seguido de uma busca por algo positivo "pelo menos vou dar uma respirada", "daqui a pouco vai ser plano e poderei correr" ou ainda análise dos trechos e da melhor maneira de progredir "devo caminhar pela margem esquerda", "melhor ir trocando pé do que apoiar nessas pedras".
Nos momentos de escalaminhada a atenção se volta para a segurança e eficiência. Então começo a pensar onde me segurar, como me equilibrar e a melhor maneira para transpor obstáculos com mínimo esforço. São momentos bem interessantes, mas de poucas reflexões.
Fadiga e reflexões
Em provas e treinos mais longos, principalmente quando há trechos noturnos, a regra do nível de concentração sofre interferência. Quando os trechos onde é preciso caminhar ou escalaminhar são longos os movimentos começam a ser repetitivos e acabam entrando num quadro automático. O que acaba diminuindo o nível de concentração, dando asas a imaginação e permitindo que os pensamentos comecem a variar.
Nesse contexto classifico os pensamentos em funcionais, motivacionais e viajantes.

Funcionais
São os pensamentos relacionados à estratégia de prova. "Na última alimentação comi gel, agora será fruta seca". "O próximo é gatorade ou água". "Esse ritmo está forte para esse momento". "Essa pedrinha ta me pertubando, vou parar para mexer no pé. Não, daqui a dez minutos eu paro".
São pensamentos que geram ou não ações específicas.
Motivacionais
Os pensamentos motivacionais são relacionados a manter o moral elevado. A fé inabalável de que vai dar certo e a confiança no resultado. Normalmente eles surgem nos momentos mais difíceis. Numa subida íngreme, num momento ofegante ou quando os músculos estão ardendo. "Chegou o fundo do poço, agora é só suportar até começar a melhorar". "A dor é migratória, daqui a pouco a coxa melhora e vai pra panturrilha". "Só falta metade, um terço, um quarto...". "Já já o sol aparece e esse frio vai embora".
São pensamentos que motivam e ajudam a manter o corpo em movimento e não ceder ao desejo de parar.
Viagens
As viagens são os pensamentos mais engraçados. No cotidiano eu já sou um cara cheio de ideia. Isso até deixa a Bia maluca. Cada dia eu chego com uma novidade ou um plano novo. No decorrer dessas aventuras então, isso é o que mais rola. Penso em planos futuros, em montanhas a serem escaladas, lugares a serem visitados e nas pessoas que fazem parte da minha trajetória. As vezes, quando vejo algum animal ou vulto deles começo a pensar na natureza e em como interagimos com ela.
São pensamentos que não tem finalidade específica, mas que refletem a conexão que está acontecendo com meu interior. Não por acaso eu os nomeio viagens. É a terapia da montanha. Hehehehehhe

Romper a inércia
Inicialmente, o pensamento que nos ronda fazendo alguma atividade desconfortante é perturbador. A tendência é pensar na respiração ofegante, nas dores musculares e migrar para famosa desculpa do "eu não consigo". Essa é a maior crença limitadora do mundo. Tudo que somos capaz de pensar nós somos capazes de realizar. Basta se organizar, planejar direitinho e se preparar adequadamente. É bem verdade que o processo de transformar sonhos em realidade dói. Não é simples. Mas na soma das pontas é muito gratificante.
A resposta sobre o que eu penso correndo é muito relativa. Depende das variáveis que citei e sofre grande interferência do humor e do momento pessoal que estou passando. E você? No que pensa quando está se exercitando ou treinando?